Participação cultural em Portugal: espetáculos ao vivo (2007-2016)

Miguel Ângelo Lopes e José Soares Neves

Publicado a 22 de março de 2020

A participação cultural nos países da União Europeia (UE) pode ser aferida através do Adult Survey Education (AES) – cuja designação em português é Inquérito à Educação e Formação de Adultos (IEFA) –, de 2007, 2011 e de 2016. O IEFA contempla um módulo com questões sobre atividades culturais, como assistir a espetáculos ao vivo – entendidos como peças de teatro, concertos de música, bailado ou dança –, a que aqui nos dedicamos. O objetivo deste texto é dar nota da evolução desta prática em Portugal.

Numa primeira análise, para o conjunto da população (figura 1), constata-se que a percentagem dos indivíduos que assistiram pelo menos a um espetáculo ao vivo subiu mais de 10 pontos percentuais entre 2007 e 2016, tendo essa subida ocorrido essencialmente entre 2011 e 2016 (de 2007 a 2011 existe um ligeiríssimo aumento de 0,8%).

Constata-se assim uma tendência de crescimento expressivo no último ano em que estão disponíveis dados (2016) podendo colocar-se a questão sobre se essa tendência se terá mantido até à recente pandemia Covid-19 com fortíssimo impacto que a mesma terá.

Fazendo uma análise segmentada por sexo (figura 2) verifica-se que esse crescimento é mais pronunciado no sexo feminino do que no masculino: de 2007 a 2011 a percentagem de mulheres que assistiram a espetáculos ao vivo aumentou um ponto percentual (nos homens não chegou a meio ponto), sendo que de 2011 para 2016 aumentou 11 pontos percentuais, mais dois pontos do que nos homens.

Focando-nos agora numa análise por escalão etário, constata-se que são os mais jovens que têm percentagens superiores na prática de assistir espetáculos ao vivo (figura 3).

Assiste-se a um crescimento dos níveis da participação em todos os escalões etários entre 2007 e 2016. Contudo, a subida mais expressiva ocorre no contingente dos indivíduos com 45 a 54 anos – em 2007, 50% destes indivíduos assistem a espetáculos ao vivo, enquanto em 2016 essa percentagem passa para 67%, ou seja, mais 17%.

Embora o escalão etário 18-24 anos seja o que tem percentagens mais elevadas, é aquele em que o crescimento foi menos expressivo – e ainda assim de mais sete pontos percentuais entre 2007 (74%) e 2016 (81%).

Uma outra análise pode ser feita relacionando a prática de assistir a espetáculos ao vivo com o grau de escolaridade (figura 4).

Também neste parâmetro se assiste a um crescimento, transversal a todos os graus de escolaridade, nos anos limite em análise. Mas no ano intermédio (2011) ocorre um decréscimo igualmente generalizado.

Confirma-se, entretanto, uma tendência geralmente observada nos estudos sobre práticas culturais, a relação direta com a qualificação escolar, ou seja, quanto mais elevada é esta maior é a propensão para assistir a espetáculos. Note-se que os detentores de ensino superior têm sempre (nos três anos observados) percentagens mais de duas vezes superiores aos que não tem qualquer grau de escolaridade.

Mas importa registar também que, entre 2007 e 2016, o crescimento mais expressivo ocorre no contingente daqueles que têm o ensino básico (59% em 2016 contra 51% em 2007, mais oito pontos percentuais), o que pode indiciar que as desigualdades por via da escolaridade no acesso a esta prática parecem estar a diminuir em Portugal.

Focando-nos agora na condição perante o trabalho (figura 5), verifica-se que todos os contingentes têm um crescimento percentual entre 2007 e 2016, destacam-se claramente os estudantes, com 85% em 2016 (crescimento de 3% face a 2007) a afirmar ter assistido pelo menos a um espetáculo ao vivo no período de referência (os últimos 12 meses).

De seguida temos os empregados – com um crescimento de 12 pontos percentuais entre 2007 e 2016 (60% e 72%, respetivamente) –, os desempregados – são os que crescem menos, ainda assim seis pontos percentuais entre 2007 e 2016 (54% e 60%, respetivamente) –, e os outros inativos – crescendo 10% (46% em 2007, face a 56% em 2016).

Nota metodológica:

O Inquérito à Educação e Formação de Adultos (IEFA) é o mesmo estudo, no plano nacional (INE), que o Adult Education Survey (AES) no plano europeu (Eurostat). No entanto, embora a população alvo do inquérito europeu respeite os indivíduos com idades entre 25 e 64 anos, em Portugal foram inquiridos, no IEFA de 2011 e 2016, indivíduos com idades entre 18 e 69 (no IEFA de 2007 foram inquiridos indivíduos com idades entre os 18 e os 64 anos).

No AES/IEFA de 2007 efetua-se a pergunta “nos últimos 12 meses, qual a frequência com que efetuou as seguintes atividades: assistiu a espetáculos ao vivo (peças, concertos, óperas, bailado e dança)”, com as opções de resposta “1 a 3 vezes”, “4 a 6 vezes”, “7 a 12 vezes”, “mais do que 12 vezes”, “não efetuou”, “recusa”, “não sabe”. No AES/IEFA de 2011 e 2016 efetuam-se duas perguntas: “nos últimos 12 meses assistiu a algum espetáculo público ao vivo [por exemplo, de teatro, concertos de música, bailado ou dança]?” e (se sim) “quantas vezes assistiu a espetáculos ao vivo nos últimos 12 meses?” (com as opções de resposta “até 6 vezes”, “mais de 6 vezes”, “recusa”, “não sabe”).

Âmbito temporal e geográfico:


 

Adult Education Survey (AES)

A primeira vaga do AES (AES 2007) foi um inquérito-piloto realizado em 26 Estados Membros da UE (a Irlanda e o Luxemburgo não participaram), bem como na Noruega, na Suíça e na Turquia. Esta primeira vaga foi realizada com base num acordo de cavalheiros entre 2005 e 2008 (dependendo do país). A segunda vaga (AES 2011) foi realizada em 27 Estados-Membros da UE (a Croácia não participou), Noruega, Suíça, bem como na Sérvia e Turquia entre julho de 2011 e junho de 2012.

Webgrafia

Eurostat, Adult_Education_Survey

https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php/Adult_Education_Survey_(AES)_methodology#Basic_concepts

Instituto Nacional de Estatística, documento metodológico IEFA

http://smi.ine.pt/DocumentacaoMetodologica/Detalhes/1441

Como citar: Lopes, Miguel Ângelo e José Soares Neves (2020), Participação cultural em Portugal: espetáculos ao vivo                                     (2007-2016), Lisboa, OPAC-Observatório Português das Atividades Culturais, CIES, ISCTE-IUL.

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