Teatro em Portugal

José Soares Neves e Ana Paula Miranda

Publicado a 8 de outubro de 2020

O Instituto Nacional de Estatística (INE) recolhe e publica desde 1950 informação sobre teatro em Portugal. Neste texto toma-se como referência a série temporal 1950 a 2018. Esta série histórica permite uma aproximação à evolução anual da oferta (sessões), da procura (espectadores) e das receitas da atividade teatral no país num período longo, embora com algumas lacunas em alguns anos (sessões e espetadores em 1957 e de 1970 a 1978; receitas, série contínua apenas a partir de 1979) e duas quebras de série, por reestruturação do projeto do INE, em 1999 (a mais importante) e em 2011.

Relativamente à oferta são visíveis três períodos com características distintas: até 1998; 1999 a 2005; e 2006 até 2018 (gráfico 1).

Até 1998 o número iguala (em 1983) ou situa-se sempre abaixo das 3.870 sessões, registando em 1991 o valor mais baixo desta série (2.252).

Pelo contrário, no período que se segue, entre 1999 e 2005, regista-se um crescimento muito acentuado. O número de sessões passa de 2.972 em 1999 para 11.804 em 2005, ou seja, cresce 297%. 

No período mais recente regista-se de novo alguma estabilidade, mas agora num patamar muito mais elevado. Nos últimos anos, é visível algum crescimento. O valor de 2018 (13.279 sessões) é mesmo o mais alto da série em análise.

Com impacto nestes dois períodos importa notar o investimento público central e local, impulsionado por fundos comunitários, em especial no âmbito do Programa Operacional da Cultura 2000-2006, primeiro na requalificação e construção de equipamentos culturais (teatros e cineteatros), e depois na programação "em rede".

No que diz respeito aos espectadores a evolução é bastante distinta. Depois de um período relativamente estável (com um pico em 1956) que vai até 1970, constata-se uma diminuição acentuada entre 1979 e 1998, registando-se o valor mais baixo da série em 1993 com 192 mil entradas (gráfico 2). A partir de 1998 a procura aumenta até 2005, diminui no ano seguinte, para recuperar até 2008, caindo novamente depois até 2011. Cresce nos anos seguintes de forma acentuada até atingir, em 2017, o volume mais elevado com um total de 2.513 mil espetadores. Contudo, no ano mais recente da série (em 2018) regista-se de novo uma descida significativa.

Em relação às receitas de bilheteira - indicador com mais lacunas de dados - no ano de 1961 regista-se o valor mais baixo da série com €128 mil de euros (gráfico 3). 

Entre 1979 e 1998 verifica-se algum crescimento, mas num patamar muito baixo se comparado com o registado posteriormente, mais acentuado a partir de 1998 até 2005. Regista-se depois um ciclo de quebra até 2012, que se inverte depois, embora com evoluções anuais contrastadas. 

Uma abordagem comparativa da evolução das três séries num período mais curto, a partir de 1979 (ano em que estão disponíveis dados para os três indicadores) mostra que o crescimento mais notório é o das receitas, seguido das sessões e só depois dos espetadores (gráfico 4). O ano de 1998 é aquele que permite balizar a fase de crescimento mais acentuada (antes já se tinham verificado picos quanto às receitas, em 1992 e 1994). Embora se registem oscilações significativas no período mais recente - é bem visível o impacto da crise financeira e económica com a queda acentuada de 2009 para 2012 - as receitas situam-se sempre num patamar muito acima dos períodos anteriores, e dos outros indicadores, com as sessões e os espetadores a registarem também crescimento, mas a níveis mais modestos.

Em 2018 regista-se, por um lado, um acréscimo de 3% nas sessões promovidas relativamente ao ano anterior e, por outro lado, uma quebra tanto no número de espetadores (-14%), como no valor das receitas de bilheteira (- 13%). Este decréscimo pode ficar a dever-se quer à diminuição dos bilhetes vendidos (-20%), quer ao aumento do seu preço médio que passou de €9,3 em 2017, para €10,2 em 2018.

Nota metodológica:

Duas quebras de série no período considerado, em 1999 e 2011. Em 1999 reestruturou-se o “Inquérito Trimestral aos Espetáculos Públicos”, o qual esteve em vigor até 1998 (inclusive). Da reestruturação resultou o “Inquérito aos Espetáculos ao Vivo” que passou a ter periodicidade anual. Procedeu-se também a uma melhor caraterização do universo das entidades promotoras de espetáculos de natureza artística, tendo-se efetuado uma atualização do respetivo ficheiro através de um “Levantamento das Entidades Promotoras de Atividades Artísticas e de Espetáculos”.

Em 2011, verificou-se uma reformulação metodológica passando a recolha da informação a ser feita por via eletrónica (WEBINQ) a partir de 2012 (ano de referência 2011). As alterações realizadas foram no questionário de recolha, definição do âmbito, classificações e conceitos utilizados tendo por base a metodologia tal como consta no relatório da ESSnet (European Social Statistics Network) Culture Statistics (Bina et al., 2012).

O INE considera:

- teatro "arte de representar uma peça ou obra, podendo incluir vários géneros, como por exemplo: drama, comédia, marionetas, mímicas, revista, declamação, musical, etc.” (INE, 2019).

- sessão “apresentação pública concreta de um espetáculo com hora de início predefinida” (INE, 2019). 

- espectador “indivíduo que possui direito de ingresso, pago ou gratuito, para uma sessão de espetáculo” (INE, 2019).

- receita de bilheteira “receita proveniente da venda dos bilhetes de ingresso, sendo igual ao número de bilhetes vendidos vezes o preço unitário” (INE, 2019).

Âmbito geográfico:

Portugal

Referências

Bina, Vladimir et al. (2012), ESSnet-Culture Final Report, Luxemburgo, ESSnet Culture e Eurostat, 556 pp.

INE (2019), Estatísticas da Cultura 2018, Lisboa, INE.

INE (2012), Documento Metodológico Inquérito aos Espetáculos ao Vivo – 2012, versão 2.0., Lisboa, INE.

INE (2005), Documento Metodológico Inquérito aos Espetáculos ao Vivo – 2005, versão 1.0., Lisboa, INE.

 

Webgrafia

INE - Instituto Nacional de Estatística, <www.ine.pt>.

Como citar: Neves, José Soares e Ana Paula Miranda  (2020), Teatro em Portugal, Lisboa,

 OPAC-Observatório Português das Atividades Culturais, CIES, ISCTE-IUL.

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