Teatro em Portugal

José Soares Neves e Ana Paula Miranda

Publicado a 8 de outubro de 2020 e atualizado a 16 de fevereiro de 2021

O Instituto Nacional de Estatística (INE) recolhe e publica desde 1950 informação sobre teatro em Portugal. Neste texto toma-se como referência a série temporal 1950 a 2019. Esta série histórica permite uma aproximação à evolução anual da oferta (sessões), da procura (espectadores) e das receitas da atividade teatral no país num período longo, embora com algumas lacunas em alguns anos (sessões e espetadores em 1957 e de 1970 a 1978; receitas, série contínua apenas a partir de 1979) e duas quebras de série, por reestruturação do projeto do INE, em 1999 (a mais importante) e em 2011.

Relativamente à oferta são visíveis três períodos com características distintas: até 1998; 1999 a 2005; e 2006 até 2019 (gráfico 1).

Gráfico 1.png

Até 1998 o número iguala (em 1983) ou situa-se sempre abaixo das 3.870 sessões, registando em 1991 o valor mais baixo desta série (2.252).

Pelo contrário, no período que se segue, entre 1999 e 2005, regista-se um crescimento muito acentuado. O número de sessões passa de 2.972 em 1999 para 11.804 em 2005, ou seja, cresce 297%. 

No período mais recente regista-se de novo alguma estabilidade, mas agora num patamar muito mais elevado. Nos últimos anos, é visível algum crescimento. O valor de 2019 (13.516 sessões) é mesmo o mais alto da série em análise.

Com impacto nestes dois períodos importa notar o investimento público central e local, impulsionado por fundos comunitários, em especial no âmbito do Programa Operacional da Cultura 2000-2006, primeiro na requalificação e construção de equipamentos culturais (teatros e cineteatros), e depois na programação "em rede".

No que diz respeito aos espectadores a evolução é bastante distinta. Depois de um período relativamente estável (com um pico em 1956) que vai até 1970, constata-se uma diminuição acentuada entre 1979 e 1998, registando-se o valor mais baixo da série em 1993 com 192 mil entradas (gráfico 2). A partir de 1998 a procura aumenta até 2005, diminui no ano seguinte, para recuperar até 2008, caindo novamente depois até 2011. Cresce nos anos seguintes de forma acentuada até atingir, em 2017, o volume mais elevado com um total de 2.513 mil espetadores. Contudo, no ano mais recente da série (em 2019) regista-se uma subida pouco significativa em relação a 2018.

Gráfico 2.png

Em relação às receitas de bilheteira - o indicador com mais lacunas de dados - no ano de 1961 regista-se o valor mais baixo da série com €128 mil euros (gráfico 3). 

Entre 1979 e 1998 nota-se algum crescimento, mas num patamar muito baixo se comparado com o registado posteriormente, mais acentuado a partir de 1998 até 2005. Regista-se depois um ciclo de quebra que se inverte em 2012, embora com evoluções contrastadas nos anos seguintes. 

Gráfico 3.png

Uma abordagem comparativa da evolução das três séries num período mais curto, a partir de 1979 (ano em que estão disponíveis dados para os três indicadores) mostra que o crescimento mais notório é o das receitas, seguido das sessões e só depois dos espetadores (gráfico 4). O ano de 1998 é aquele que permite balizar a fase de crescimento mais acentuada (antes já se tinham verificado picos quanto às receitas, em 1992 e 1994). Embora se registem oscilações significativas no período mais recente - é bem visível o impacto da crise financeira e económica com a queda acentuada de 2009 para 2012 - as receitas situam-se sempre num patamar muito acima dos períodos anteriores, e dos outros indicadores, com as sessões e os espetadores a registarem também crescimento, mas a níveis mais modestos.

Em 2019 regista-se um acréscimo de 2% tanto nas sessões promovidas como no número de espetadores (1%) e no valor das receitas de bilheteira (13%) relativamente ao ano anterior.  

Gráfico 4.png

Nota metodológica:

Há duas quebras de série no período considerado, em 1999 e 2011. Em 1999 reestruturou-se o “Inquérito Trimestral aos Espetáculos Públicos”, o qual esteve em vigor até 1998 (inclusive). Da reestruturação resultou o “Inquérito aos Espetáculos ao Vivo” que passou a ter periodicidade anual. Procedeu-se também a uma melhor caraterização do universo das entidades promotoras de espetáculos de natureza artística, tendo-se efetuado uma atualização do respetivo ficheiro através de um “Levantamento das Entidades Promotoras de Atividades Artísticas e de Espetáculos”.

Em 2011, verificou-se uma reformulação metodológica passando a recolha da informação a ser feita por via eletrónica (WEBINQ) a partir de 2012 (ano de referência 2011). Foram realizadas alterações no questionário de recolha, na definição do âmbito, nas classificações e nos conceitos utilizados tendo por base a metodologia do relatório da ESSnet (European Social Statistics Network) Culture Statistics (Bina et al., 2012).

O INE considera:

- teatro "arte de representar uma peça ou obra, podendo incluir vários géneros, como por exemplo: drama, comédia, marionetas, mímicas, revista, declamação, musical, etc.” (INE, 2020).

- sessão “apresentação pública concreta de um espetáculo com hora de início predefinida” (INE, 2020). 

- espectador “indivíduo que possui direito de ingresso, pago ou gratuito, para uma sessão de espetáculo” (INE, 2020).

- receita de bilheteira “receita proveniente da venda dos bilhetes de ingresso, sendo igual ao número de bilhetes vendidos vezes o preço unitário” (INE, 2020).

Âmbito geográfico:

Portugal

Referências

Bina, Vladimir et al. (2012), ESSnet-Culture Final Report, Luxemburgo, ESSnet Culture e Eurostat, 556 pp.

INE (2020), Estatísticas da Cultura 2019, Lisboa, INE.

INE (2012), Documento Metodológico Inquérito aos Espetáculos ao Vivo – 2012, versão 2.0., Lisboa, INE.

INE (2005), Documento Metodológico Inquérito aos Espetáculos ao Vivo – 2005, versão 1.0., Lisboa, INE.

 

Webgrafia

INE - Instituto Nacional de Estatística, <www.ine.pt>.

Como citar: Neves, José Soares e Ana Paula Miranda  (2020), Teatro em Portugal, Lisboa,

 OPAC-Observatório Português das Atividades Culturais, CIES, ISCTE-IUL.